Eu fujo de relacionamentos como fujo da bola do jogo de queimado na escola aos 13 anos. Ela era certeira, como se estivesse uma ligação recorrente entre a gente. E uma bolada talvez fosse uma ótima desculpa para um atestado em que eu não precisasse mais participar da aula de educação física. A única diferença entre fugir de um relacionamento e fugir da bola de queimado, é que a bola de queimado tinha o seu lado bom.
Consegui manter alguns relacionamentos em uma certa distância com um simples "tenho outras prioridades agora", mas logo depois eu descobri que isso também poderia afetar os "que amam ser desafiados", e tive que mudar a minha estratégia.
Com o tempo eu comecei a ouvir de amigas o quanto elas queriam ser que nem eu. Sobre não conseguir manter um relacionamento digno de um sofrimento pós termino, e me auto nomearem a "que não se apega". E eu me auto nomear "sou isso mesmo", como algo no qual, devo admitir, me orgulhei.
Perdi as contas de quantas vezes eu fui chamada de "fria e sem coração". E de tanto ouvir isso, acreditei que essa era a minha definição e entrei no jogo em que apenas eu e o meu super ego inflável participava. Foi caindo nessa que o meu papel se fez presente em todas as minhas contidas e inúmeras histórias. Era só perceber que de alguma forma um coração se tornava instável, que eu corria como quem corre da bola de queimado na escola aos 13 anos. E devo confessar, o coração instável nunca era o meu. O que fez com que eu acreditasse mais ainda naquela bolha que se formava sobre esse coração em que nomearam como "pedra".
Coração de pedra. Mais um nome para o meu acervo de apelidos sobre alguém que dizem "não sentir". Mais um nome que eu adotei para a minha carreira de atriz, que passou a ser o protagonista do "não se iluda, por que ela não tem coração". Papel no qual, tomou conta de mim.
Houve um ano em que eu colecionei pedidos de namoro, foram 6 para ser mais exata. Seis pedidos rejeitados sobre alguém que não tinha nenhuma noção do que estava fazendo, mas tinha certeza de que um "não" era a melhor resposta. Ser pedida em namoro é um fato um tanto quanto histórico, negar um pedido de namoro é um ato um tanto quanto peculiar, e rejeitar seis pedidos de namoro em apenas um ano, é alguém chamando o meu nome para receber o prêmio Nobel.
Quando tudo passou. Quando toda a minha trama se perdeu em mim. Me coloquei em um elo junto com tudo o que achava sentir, e me joguei em um poço sem fim no espelho sujo do meu closet onde as lágrimas passaram a ser as únicas protagonistas.
Se sentir só não fazia parte do jogo de queimado. Sentir o coração bater mais forte a cada vez que a bola chega perto e ter a sensação de que tudo está por um fim no segundo em que o jogo vira e é você quem está por cima e queima alguém. Não é nem de longe a adrenalina de se estar apaixonado.
O espelho em que me vejo, me mostra o quanto fraca sou para esse jogo. O olhar do desejo da paixão de quem me olha, me diz que não estou preparada para esse jogo. O sentimento que corrói por dentro e dói aqui, bem na alma. Me diz que para se queimar, precisa entrar no jogo.
