quinta-feira, julho 30, 2020

Até ontem estava tudo bem


           Estava tudo bem com o que a gente chama de "É massa o que temos", com as histórias mais engraçada das coisas que já fizemos e com os encontros repentinos que nunca nos fizeram cair sobre saídas monótonas. Estava tudo bem, até termos aquela conversa na noite passada e de me tomar toda a sanidade que já estava completando abalada e fazer minha cabeça não parar de pensar em nada além de você.

Estava tudo bem com toda aquela coisa que eu criei, com o meu plano de "a gente não combina - sabemos disso - nunca vamos nos envolver" desse certo, e toda aquela coisa de relacionamento fosse parte de algo que nunca aconteceria com a gente.

E falar "a gente" dói a alma, falar "a gente" faz com que a gente realmente exista, e perceber isso dói o estômago, dói no fundo do peito e por falar em dor. Dói tudo.

Estava tudo bem até você falar sobre os seus sentimentos. A confusão em que ele te toma e a conclusão que aquilo te atormenta.

Estava tudo bem até ontem a noite enquanto a gente assistia um filme ridículo comendo uma pipoca sem gosto, das risadas sobre o tal filme ridículo comendo uma pipoca sem gosto. E dos comentários sobre o tal filme  ridículo comendo uma pipoca sem gosto.

Estava tudo bem antes daquele vinho na praia, antes do barulho das ondas do mar que ecoava no fundo daquela música enquanto dançavamos. Estava tudo bem antes daquela dança, daquele gole, daquele beijo, daquele enredo. Daquele encontro.

Estava tudo bem até você bater a real e eu perceber que bem era só a minha atuação de fingir não sentir nada por você.






domingo, maio 24, 2020

Jogo de queimado


       Eu fujo de relacionamentos como fujo da bola do jogo de queimado na escola aos 13 anos. Ela era certeira, como se estivesse uma ligação recorrente entre a gente. E uma bolada talvez fosse uma ótima desculpa para um atestado em que eu não precisasse mais participar da aula de educação física. A única diferença entre fugir de um relacionamento e fugir da bola de queimado, é que a bola de queimado tinha o seu lado bom. 

Consegui manter alguns relacionamentos em uma certa distância com um simples "tenho outras prioridades agora", mas logo depois eu descobri que isso também poderia afetar os "que amam ser desafiados", e tive que mudar a minha estratégia. 

Com o tempo eu comecei a ouvir de amigas o quanto elas queriam ser que nem eu. Sobre não conseguir manter um relacionamento digno de um sofrimento pós termino, e me auto nomearem a "que não se apega". E eu me auto nomear "sou isso mesmo", como algo no qual, devo admitir, me orgulhei. 

Perdi as contas de quantas vezes eu fui chamada de "fria e sem coração". E de tanto ouvir isso, acreditei que essa era a minha definição e entrei no jogo em que apenas eu e o meu super ego inflável participava. Foi caindo nessa que o meu papel se fez presente em todas as minhas contidas e inúmeras histórias. Era só perceber que de alguma forma um coração se tornava instável, que eu corria como quem corre da bola de queimado na escola aos 13 anos. E devo confessar, o coração instável nunca era o meu. O que fez com que eu acreditasse mais ainda naquela bolha que se formava sobre esse coração em que nomearam como "pedra". 

Coração de pedra. Mais um nome para o meu acervo de apelidos sobre alguém que dizem "não sentir". Mais um nome que eu adotei para a minha carreira de atriz, que passou a ser o protagonista do "não se iluda, por que ela não tem coração". Papel no qual, tomou conta de mim. 

Houve um ano em que eu colecionei pedidos de namoro, foram 6 para ser mais exata. Seis pedidos rejeitados sobre alguém que não tinha nenhuma noção do que estava fazendo, mas tinha certeza de que um "não" era a melhor resposta. Ser pedida em namoro é um fato um tanto quanto histórico, negar um pedido de namoro é um ato um tanto quanto peculiar, e rejeitar seis pedidos de namoro em apenas um ano, é alguém chamando o meu nome para receber o prêmio Nobel. 

Quando tudo passou. Quando toda a minha trama se perdeu em mim. Me coloquei em um elo junto com tudo o que achava sentir, e me joguei em um poço sem fim no espelho sujo do meu closet onde as lágrimas passaram a ser as únicas protagonistas. 

Se sentir só não fazia parte do jogo de queimado. Sentir o coração bater mais forte a cada vez que a bola chega perto e ter a sensação de que tudo está por um fim no segundo em que o jogo vira e é você quem está por cima e queima alguém. Não é nem de longe a adrenalina de se estar apaixonado.

 O espelho em que me vejo, me mostra o quanto fraca sou para esse jogo. O olhar do desejo da paixão de quem me olha, me diz que não estou preparada para esse jogo. O sentimento que corrói por dentro e dói aqui, bem na alma. Me diz que para se queimar, precisa entrar no jogo.

Hoje eu senti falta de mim

Hoje foi um daqueles dias em que não queria existir. Queria voltar a dormir depois de ser acordada às seis da manhã, manter o sono profundo que já se distanciou tanto para ter uma lembrança, sonhar com qualquer coisa que não tivesse um choro de criança e poder me espreguiçar diante de tanta preguiça acumulada. ⠀
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Hoje foi um daqueles dias em que eu só queria fugir, retornar ao meu sonho de adolescente e vender a minha poesia na beira da praia, desfrutar de um bom e velho livro na rede na varanda de casa, admirar o por do sol enquanto escrevo na areia e andar apressada antes de ser devorada pelas ondas do mar.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Hoje foi um daqueles dias em que eu só queria voltar um pouco no tempo, levar uma bronca por estar dormindo na aula, encontrar meus amigos para tomar uma nas quartas, e desfrutar de uma boa e velha insônia sem medo do outro dia.⠀
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Hoje foi um daqueles dias em que eu respirei fundo e respirei de novo. Contei até 10 antes do próximo choro e aceitei que ser mãe, também é sentir falta de si.
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Hoje eu percebi que me culpar por isso é uma completa falta de tempo. Aceitei o fato do que realmente está doendo, e me entreguei até a dor de cabeça que já mora em mim. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
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Hoje eu tive vontade de ser eu e aprendi que não há mal nenhum nisso.

Esses olhinhos


   




Eu, meus textões e a dúvida de que alguém realmente vai ler. Escrever sempre foi meu passa tempo, e tempo agora é o que eu não ando tendo. Escrevo menos do que gostaria, entre uma mamadeira ou outra de Elis e a espera para aquele sono profundo onde é certo de que não vai acordar quando for para o berço. Sem contar nas tentativas falhas, onde as palavras são esquecidas e eu já não lembro mais onde é o lugar certo de por a vírgula. A maternidade chega e carrega a sua memória. Me esqueço da água fervendo no fogão, da torneira ligada porque sai correndo para acalentar um choro, até de calçar os pés para uma ida ao pediatra. As tentativas são ocupadas por um "Que horas que ela comeu mesmo?" ou se devo acordar ou não para alimenta-la. São 24 horas de momentos bizarros, onde dou risada e choro ao mesmo tempo em frente a um espelho. A mente é ocupada por um cansaço tão profundo que já não consigo mais pensar direito, são pausas diárias de qualquer atividade que eu venha tentar fazer. Desde lavar a mamadeira ou ajeitar as unhas. E me pergunto o que fazia com todo esse tempo? Dormir é a melhor resposta. E por falar nisso, que saudade que eu tenho de uma dormida sem pausa ou de um sonho sem fraldas. É doloroso tentar manter a ordem, até aqui. Comecei falando sobre escrever e acabei mudando de assunto. E  agora esse é o único assunto no qual eu consigo permanecer. É confuso, é duro, é assustador. Mas esse olhinhos... vocês já viram esses olhinhos? Até esqueci sobre o que estava escrevendo.

Como "num" filme

       Sempre imaginei meu parto como nos filmes, que tolice a minha, não queria me prender a realidade. A bolsa iria estourar no meio de um mercadinho, minha preocupação seria com quem vai limpar a sujeira que fiz e correria para o carro a caminho do hospital. Mas nem tudo é como a gente idealiza. 

Eu não faço compras, minha bolsa não deu sinal e Elis não estava afim de nascer. Esperta desde a barriga, claro. Eu também não iria querer conhecer o lado de fora. Mas também já não aguentava o mundo sem ela nos meus braços.

41 semanas, mochilas no carro e esperança zero. Era certo que o medico me mandaria de volta para casa, mas para surpresa de todos, ele trouxe Elis a vida. Com seus 3.310 kg e 48 cm. Ela nasceu de uma cesáreana, as 21:57hrs de uma terça-feira, 29 de janeiro de 2019. 

Aquariana, chorona e linda. 

E eu boba, frágil e inerte. 

Hoje faz uma semana do seu nascimento e realmente não foi como nos filmes. Nem o melhor diretor do mundo conseguiria descrever tamanha perfeição.

Contagem regressiva



Pela medicina são vinte e sete semanas.
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Na tabela gestacional é o sétimo mês.
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No site acabei de entrar para o terceiro trimestre. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
No aplicativo são cento e noventa dias.
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Mas mesmo assim quando me perguntam não sei o que responder.
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Na minha cabeça é uma eternidade.
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Na ansiedade eu já chorei por imaginar ela entrando na escola.
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Pelo enxoval eu gostaria que durasse mais um ano.
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Pela falta de ar queria que isso terminasse hoje mesmo.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
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A foto é de um mês atrás.
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A barriga está maior do que agora. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Na imagem tem uma bela forma escura se fingindo de plena.
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Na realidade tem uma bela rechonchuda tentando levantar da cama. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Na escrita vemos nitidamente uma gestante sem ter o que fazer.
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No texto sem sentindo vemos a falta do que escrever.
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Então vou permanecer aqui.
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Ansiosa.
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Rechonchuda.
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Plena.
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Esperando acontecer.

Menino ou menina?


               São 14:00 da tarde, o sol está tão quente lá fora que consigo ver as pessoas se escorando em uma sombra. É uma segunda-feira, 17 de setembro. O dia em que eu disse não querer que chegasse, chegou. Eu, que na primeira ideia pensei em só descobrir o sexo do bebê no parto, me encontrei desesperada na sala de espera com os olhos esperançosos quando a atendente vinha com uma lista na mão no qual o meu nome não era o próximo. Fui a ultima a ser chamada, claro, não teria como ser diferente já que cheguei tão atrasada.
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- Leina Lima Costa, é você? A senhora é a próxima. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Descobrir o sexo de um filho nunca foi pra mim uma prioridade, mas ninguém me avisou que a gravidez carrega com ela um poço de ansiedade. Eu já fiz e desfiz toda a decoração do quarto, já fiz todo o enxoval em um site americano no qual eu não vou comprar, já organizei as prateleiras do guarda roupa que ainda nem pintou e já fiz umas inúmeras listas para o chá de fralda. Os nomes. Ah, os nomes... Estão na ponta da língua esperando a notícia que finalmente vai fazer eu parar de chamar a minha barriga de bebê. 

Entro na sala. 

O médico tenta me explicar cada pedacinho daquele ser. O desespero passa ao ouvir o som do coração batendo. O pai ao lado não tira os olhos daquela tela como se estivesse entendendo tudo. E eu por um momento até esqueci o que estava fazendo ali. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

- Está tudo bem com a sua bebezinha.
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Sim, ele disse inha.
Uma bebezinha.
Minha Elis.
O desespero voltou. 
Será mesmo que eu tenho capacidade de criar uma mini me?